Retoque
Acredito que cheguei naquele momento da reinvenção, que alguns muitos passam... Ou será que é crise de meia idade? Sabe lá... precoce como sempre fui... talvez seja.
Certa vez ouvi dizer que as pessoas mais interessantes que existem, não sabiam o que queriam aos vinte e dois anos de idade. Poxa... Estou com vinte e três!
E nessa brincadeira de introspecção buscando projeção, sem querer visitei locais intocáveis, lugares em que pensei jamais visitar. Onde não queria mais tatear as minúcias, seja de felicidade ou de dor. Pensei demais...
E no meio de objetos abandonados, hoje praticamente inúteis... sem querer, vi uma imagem, uma das poucas que ainda não me desfiz... Uma bela imagem, quente, afetiva, viva... Morta.
E como um turbilhão, me vem evidências... vem os porquês, os quais, os quês do quais... os poréns e os afins.
Lágrimas quase gritam, suplicam a queda, mas não há reservas para pranteio.
E nesta confusão, em meio aos objetos, encontrei um livro, de página já aberta, escancarada, pronta!
Irresistivelmente, aceitei o convite de passar os olhos por sobre aquela página e comecei a ler...
Quem antes afiançar que essa moça não se conhece senão através de ir vivendo à toa. Se tivesse a tolice de se perguntar "quem sou eu?" Cairia estatelada em cheio no chão. É que "quem sou eu?" Provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto.
(...)
Pergunto-me se eu deveria caminhar à frente do tempo e esboçar logo um final. Acontece porém que eu mesmo ainda não sei bem como isto terminará. E também porque entendo que devo caminhar passo a passo de acordo com um prazo determinado por horas: até um bicho lida com o tempo. E esta é também a minha mais primeira condição: a de caminhar paulatinamente apesar da impaciência que tenho em relação a essa moça.
Parafraseando Clarice Lispector.
E eu ,assim como essa moça incompleta... sigo caminhando... me reinventando e retocando o que por desventura um dia desbotou.
Emmanuelle Vasconcelos
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